Violência obstétrica: “O parto do meu filho foi o momento da vida em que eu me senti mais humilhada”
*Texto publicado originalmente em 03/2016, em alusão à Semana da Mulher.
“O parto do meu filho foi o momento da vida em que eu me senti mais humilhada”. É assim que a lourenciana Fabiane Peglow, de trinta e sete anos, descreve o parto de seu primeiro filho, Leonardo, hoje com dezesseis anos. A sucessão de erros durante seu nascimento resultou em uma paralisia cerebral severa, ocasionada por falta de oxigênio no cérebro. “O momento mais especial da vida de uma mulher é o nascimento de um filho, não é o teu casamento (...). E foi o momento em que eu fui mais maltratada, que não tive dignidade nenhuma”.

Fabiane, que peregrinou em duas cidades e passou por diversos obstetras após sua bolsa ter rompido e não ter dilatação, conta que além de ser xingada e machucada, permaneceu sozinha sem a companhia do marido, que foi impedido de ingressar na sala de parto. O relato ilustra um drama vivido por uma em cada quatro brasileiras que deram à luz, segundo a pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Fiocruz: a violência obstétrica.
O parto
Com a bolsa rompida e já em trabalho de parto, com apenas dois dedos de dilatação, Fabiane foi liberada pelo médico sem encaminhamento, em Tapes. Ela conta que seguiu de carro até Guaíba, pois o hospital anterior não teria disposto a ambulância, mas lá os fatos se repetiram: “O atendimento foi pior. As mães estavam apavoradas, pedindo para serem atendidas. Uma queria até pular da janela de tanto desespero. Eu pensei: ‘será que me trouxeram para a psiquiatria?’”.
Fabiane afirma que explicou a situação e que mesmo assim foi novamente colocada no soro. “Eu falava: ‘Doutora, eu tô vindo de outro hospital (...), eu já estou pronta, não tenho condições de ter parto normal, eu tenho que fazer uma cesárea de emergência’. Ela disse: ‘A médica sou eu e tu fica quieta. Quem sabe sou eu’”. A lourenciana conta que após esperar por muitas horas e passar por diversas trocas de plantão, mordia a fronha de seu travesseiro para aliviar a dor, pois era xingada se gritasse. A cesárea só foi realizada após pressão da sogra sob o médico responsável, depois de vinte horas de trabalho de parto. Para Fabiane, falta mais “humanidade e carinho pela profissão”, por parte dos profissionais.
A descoberta
Ela conta que o nascimento de Leonardo foi seu maior momento de superação: “Eu me descobri quando tive o Leo”, garante. “Eu sempre trabalhei desde nova. Comecei a morar sozinha com quinze anos, me sustentando e sempre achava que eu era demais. Mas quando eu tive o Leo, vi que eu podia aprender muito (...). O Leo me mostrou que podia me ensinar muito mais do que eu podia ensinar para ele”. Para ela, antes do filho, não imaginava a capacidade de doação das mães.
A descoberta da deficiência de Leonardo veio aos seis meses, porém já desconfiada, Fabiane levava o bebê para consultar com outros médicos em busca de um diagnóstico desde seus dois meses de idade, sem sucesso. Um pediatra chegou a afirmar que Fabiane era “louca” e que a criança estava “gorda e saudável”: “Ele me correu do consultório”, relembra.
A consulta com o neurologista foi obtida por meio de uma vaquinha com contribuições de conhecidos, organizada pela irmã de Fabiane. Na consulta, foi diagnosticado que Leonardo tem retardo mental, sem cura. Ela afirma que sentiu medo ao ter o diagnóstico de Leo, por não saber o que fazer para ajudá-lo. O trabalho em uma fábrica de calçados de Tapes teve que ser dispensado. Com apenas vinte anos, Fabiane voltou à São Lourenço e começou a lutar pela sobrevivência de seu filho.
“Depois do diagnóstico começou a maratona: Porto Alegre, Pelotas, Guaíba, Bagé... Eu fui para tudo que é lugar com ele. Ele já passou por 14 neurologistas, até encontrar o que ele está hoje”. Fabiane acredita que como o caso é grave, os profissionais não queriam continuar com o tratamento, e iam repassando para outros médicos.
“Quando Leo era pequeno, três médicos afirmaram que a sua expectativa de vida seria de aproximadamente sete anos”. A mãe conta que a aproximação da data foi o seu momento mais difícil, onde teve que aprender a lidar com o sentimento de impotência. Atualmente, quase dez anos depois, Fabiane acredita que a boa alimentação do filho seja importante para que ele se mantenha forte e saudável. As refeições geralmente são processadas, já que ele não mastiga. Como lanche, Leo gosta de comer iogurte e cereais como Mucilon e Neston. A carne não faz parte da dieta, em virtude de problemas na digestão dos alimentos.
A vida
Para Fabiane, ser mãe é sinônimo de doação e amor. Ela vê o esforço desempenhado por Leo com bom-humor: “Academia para quê, né?”.
Além de Leo, Fabiane também tem a filha Júlia, de dez anos. As duas gestações foram planejadas: “Me apaixonei por eles desde que engravidei dos dois”. Fabiane conta que só decidiu engravidar de Júlia após ter certeza de que o problema de Leo não tinha nenhum cunho genético. “Não queria que outro filho tivesse sofrimento. Não por nós ajudar eles, mas por eles se privarem de muita coisa”.
Fabiane conta que Júlia é seu braço direito: “apesar de ter pouca idade, ela entende as coisas”. A relação dos irmãos também é boa, segundo a mãe: “O Léo é apaixonado pela Júlia, eles gostam de brincar de esconder”. Ela afirma que Leo gosta de passear e lhe acompanha sempre: “Ele é meu grude”. Antes da cadeira, lembra que passeava com os filhos em um carrinho de supermercado de dois andares, com Leo na parte de baixo e Júlia na parte de cima.
Ela considera Leonardo é bem ativo: “Ele tá sempre agitando, todo mundo para aí para conversar com ele. Chamam o Leo de gurizinho da janela. (...) Ele é inteligente, ele reconhece as pessoas, ele só não consegue aprender e falar. Quando vejo um menino da idade dele, às vezes até parecido, me dá um aperto”.

Fabiane conta que após ter Leo não conseguiu ter um emprego formal, mas trabalhou com empregos eventuais e mais flexíveis, realizando cobranças, limpezas e vendendo pães caseiros. Atualmente, após a mudança de residência para o loteamento “Colina do Sol”, no extremo da cidade, Fabiane conta que é complicado conseguir sair para vender seus produtos e acaba ficando mais com o filho em casa.
A obtenção de remédios pelo governo é demorada, fazendo com que Fabiane ingresse com medidas judiciais para o recebimento dos medicamentos. “Eles sempre dão desculpas de porque não vem. Parece que o Leo não precisa tomar remédio por causa da greve dos caminhoneiros, por exemplo”.
Ela também ingressou com uma ação judicial contra o hospital a fim de cobrir os gastos com o tratamento, entretanto o caso não teve prosseguimento pois lhe informaram que erro médico não teria como provar e que seria demorado. Fabiane afirma que gostaria de continuar com o processo: “Meu filho é para sempre. Os gastos não são só com neurologista. Ele precisaria de fisioterapia e um lugar adaptado para que pudesse tomar banho”. Além disso, Leo demanda uma grande quantidade mensal de fraldas geriátricas, que Fabiane consegue através de ajuda e doações, e remédios, totalizando 15 comprimidos diários.
A família é mantida financeiramente pelo companheiro, que trabalha como marceneiro. Vivendo juntos há dezoito anos, o cuidado com o filho é todo realizado por Fabiane. “Ele não tem paciência”, afirma. Quando questionada se acreditaria que o trabalho desempenhado por ela poderia ser realizado por um homem, Fabiane ri: “O que a gente faz, ninguém faz”. Além das lesões causadas na coluna pelo excesso de força para levantar o filho, Fabiane conta que dorme somente cerca de duas a três horas por noite, pois Leo começa a se debater na cama em que os dois dividem.
Os animais
Fabiane ingressou como voluntária no grupo Peludos SLS há quatro anos, auxiliando animais de rua. Com um canil construído através de doações, Fabiane atualmente cuida em seu terreno de seis animais em situação de abandono, como um lar temporário. Segundo ela, o amor por animais, já lhe acompanha desde a infância, quando recolhia cachorros da rua e levava-os para casa, cuidando-os e alimentando-os. A preocupação foi passada para a filha Júlia, que se autointitula Protetora Mirim dos Animais e quer ser bióloga ou veterinária futuramente.
A mulher
Fabiane afirma que não se considera sozinha e que tira forças todos os dias por meio dos próprios filhos. Além disso, diz ter grandes amigos, que lhe auxiliam e renovam suas forças sempre que fica mais para baixo: “ninguém é de ferro, né?”. Para ela, a melhor coisa de ser mãe é poder ver o sorriso e ter o abraço de seus filhos: “Fico feliz vendo a Júlia criada a o Léo recuperado e saudável”.
Ela considera que ser mulher é “se superar a cada dia”. “É ter amor pelo que tu faz. É ter atitude e se superar a cada dia. Vêm as dificuldades e a gente não fica lá se lamuriando, não, a gente encara, levanta a cabeça e vamo que vamo. Tem que ter força!”, afirma.
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