Também somos latino-americanos
*Texto publicado originalmente em 11/15
Como todo indivíduo, somos feitos de vínculos históricos com nossos antepassados, e talvez essa seja a parte mais difícil em também nos reconhecermos como latino-americanos. Somos descendentes de imigrantes de praticamente toda a parte do Velho Mundo e do Continente Africano, mas a maioria de nós nasce de histórias que se enraizaram aqui mesmo, na América. Alguns de nós somos, inclusive, a mistura de sementes nativas americanas. Por fim, somos um amontoado de histórias.
Quando estudamos História na escola, somos convidados a viajar por um mundo construído a partir de relatos e teorias geralmente atemporais aos fatos. E parece tudo muito simples na concepção que vamos adquirindo sobre a vida humana na terra: surgimos na África, migramos pela Eurásia, chegamos a América. Entre pequenas e grandes evoluções temos revoluções: descobrimos o fogo, surge a agricultura, aprendemos a nos comunicar verbalmente. Guerreamos. Disputamos territórios, mercados e mentalidades. Fazemos das armas, das religiões e das moedas as ferramentas de combate. Uns ganham, outros perdem. Seremos colonizados, descolonizados e, posteriormente, recolonizados pela globalização. Mudaremos os modos de produção, faremos a Revolução Industrial e a Revolução Tecnológica. Seremos explorados. Receberemos novas imigrações. Surgirão as teorias sobre o conceito de evolução. Seremos estudados por biólogos, antropólogos, sociólogos, filósofos e historiadores. Nossa raça será dividida em raças, nosso modo de pensar será rotulado por ideologias. E um belo final de trimestre, no terceiro ano do Ensino Médio e mais perto da realidade, descobriremos que existe outro mundo ao nosso redor. Então onde ficou toda aquela História que aprendemos na escola?
O ensino de visão predominantemente eurocentrista da História que norteia a base curricular atual do ensino dessa disciplina no país, tem sido alvo de debates, discussões e formulações acerca da relevância de certas temáticas e irrelevância de outras. Na semana que passou, o MEC (Ministério da Educação e Cultura) apresentou uma nova proposta que altera o ensino de História no país. Dois pontos estão em conflito nessa proposta: por um lado, o MEC apresenta a inserção das temáticas sobre História da África, História da América e um maior destaque à História do Brasil. Por outro, a história das culturas ocidentais (História da Grécia, Roma, Revolução Francesa, Revolução Industrial, etc.) nem mesmo aparecem como temas. Ora, é indiscutivelmente importante que o ensino curricular passe a dar a devida importância às temáticas que até o momento, têm sido trabalhadas de forma breve e geral em sala de aula. Porém, é inevitável que as civilizações bases da cultura moderna, continuem a ser conhecidas e compreendidas. Uma temática jamais deve excluir a outra, embora, devamos reconhecer que as Histórias da África, da Ásia e da América têm sido, até então, relegadas a segundo plano.
Talvez, com uma maior inserção dessas temáticas no ensino regular e de modo balanceado com as temáticas tradicionalmente abordadas, as novas gerações possam também se reconhecer como latino-americanos. Talvez, possam saber que nesse continente também existe história, e compreender que nossa sociedade é composta pela diversidade que se determinou de certo modo aqui na América. Aqui que nossos antepassados mais próximos construíram seus sonhos. Nessa terra foi onde lutaram por seus ideais. Aqui também temos exemplos de vida. Também temos heróis anônimos. Conquistas e revoluções. Em cada esquina, temos um pouco de história. Em cada indivíduo latino-americano temos um pouco de nós. Daquilo que fomos e do que seremos.
Por fim, talvez possamos perceber que os limites fronteiriços são apenas construções simbólicas, pois existem mais coisas que nos unem do que coisas que nos separam. Talvez seja hora de romper as fronteiras culturais, sociais, linguísticas, políticas, ideológicas e religiosas, e nos percebermos enquanto cidadãos brasileiros, cidadãos sul-americanos, cidadãos do mundo. E talvez seja a hora de, definitivamente, descobrirmos a América.

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