Solidariedade: do latim solidare - solidificar, confirmar
*Texto publicado originalmente em 12/2015
Sempre quis divagar sobre solidariedade e, neste dia - o último do ano de 2015 segundo o calendário gregoriano - em que costumamos fazer votos para o novo ciclo que inicia, o tema vem a calhar, principalmente porque na última semana, tive alguns exemplos bem distintos de relações interpessoais. Em sua maioria, foram exemplos positivos. Mas uma situação em particular me deixou muito incomodada.
Estávamos indo à praia do Laranjal, quando numa movimentada avenida da cidade de Pelotas, num daqueles dias em que o calor não dá trégua nem debaixo da sombra, o semáforo deu sinal vermelho e surgiram entre os carros que se aglomeravam no trânsito, dois simpáticos rapazes fazendo malabares. Artistas de rua, admiravelmente expondo sua arte sem se importarem com o sol escaldante e o barulho ensurdecedor dos motores. Após a curta apresentação, um indivíduo num dos veículos que estava mais a frente estendeu uma garrafa de água a um dos rapazes e, em seguida, acelerou, pois o sinal já estava verde. Nós, que estávamos mais atrás, achamos o gesto muito bonito: dar uma garrafa d’água a um artista de rua naquelas condições climáticas era presenteá-lo. Mas para nossa surpresa, quando chegamos mais perto, percebemos que a garrafa de água, na verdade, estava vazia. O saltimbanco, decepcionado. Nós, boquiabertos com tamanha insensibilidade.
Aquela cena permanece comigo, como um exemplo do que é NÃO SER solidário e, além disso, caçoar de quem tenta fazer o mundo agitado e estressante das grandes cidades um pouco mais alegre.
Eduardo Galeano, um dos grandes pensadores da nossa geração, certa vez disse que não acredita em caridade, pois caridade é vertical, de cima para baixo. Por outro lado, acredita em solidariedade, pois esta é horizontal, respeita a outra pessoa e aprende com ela. Acredito que, se existe uma lição que necessitamos aprender é exatamente essa: ser solidário e não caritativo. Pensar que nossas relações interpessoais e com um mundo são relações de troca, de aprendizagem mútua. Pensar que cada indivíduo tem algo importante a nos dizer, mesmo que não com palavras.
Geralmente, essa é a época do ano em que as pessoas lembram-se dos mais necessitados, organizam ranchos, doações e presentes para fazer o Natal e a virada de ano de outras pessoas momentos mais felizes e plenos. Esse é um gesto bonito. Um gesto admirável. Desconhecidos se abraçam e desejam Boas Festas. Tudo parece ser luz, paz e alegria.
Mas e depois das festas? Será que nos lembramos dos desconhecidos? Será que, ao menos, nos lembramos dos nossos vizinhos, parentes e amigos? Será que damos bom dia, boa tarde e boa noite para o porteiro ou a caixa no supermercado?
Precisamos de solidariedade no mundo e ela pode vir com um simples “tudo bem?” ou um “posso te ajudar”. Ela também pode vir com um sorriso correspondido, com gratidão, com uma gentileza ou um ouvido disposto a escutar os anseios do próximo. Solidariedade é o que precisamos o ano todo e de modo ilimitado. Que em 2016, entre anseios e promessas, possamos solidificar e confirmar nossas ações em prol de um mundo realmente mais igualitário, justo e bom, onde sonhar seja possível, onde o próximo seja visto como uma promessa e não como uma ameaça. Que em 2016, possamos ser corações cheios de solidariedade, que façam transbordar as garrafas vazias que a falta de compaixão teima em oferecer!
Precisamos de solidariedade no mundo e ela pode vir com um simples “tudo bem?” ou um “posso te ajudar”. Ela também pode vir com um sorriso correspondido, com gratidão, com uma gentileza ou um ouvido disposto a escutar os anseios do próximo. Solidariedade é o que precisamos o ano todo e de modo ilimitado. Que em 2016, entre anseios e promessas, possamos solidificar e confirmar nossas ações em prol de um mundo realmente mais igualitário, justo e bom, onde sonhar seja possível, onde o próximo seja visto como uma promessa e não como uma ameaça. Que em 2016, possamos ser corações cheios de solidariedade, que façam transbordar as garrafas vazias que a falta de compaixão teima em oferecer!


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