Sem dinheiro seríamos todos ricos

*Texto publicado originalmente em 04/2016



Eu não nasci em uma família abastada, mesmo assim, sempre tive tudo o que precisei na minha vida. Meus pais, trabalhadores, conquistaram tudo o que temos na labuta. Posso ser considerada uma típica filha da classe média.
Dentre todas as opções que tive na vida até agora, optei por ser professora de História. Professora, porque acredito, como Paulo Freire e tantos outros pensadores da área, que a educação liberta e que apenas ela é capaz de mudar o homem para este, por sua vez, mudar o mundo. História, porque sempre tive curiosidade de buscar explicação para as coisas do mundo, mesmo que houvesse várias explicações, e procurar compreender o motivo de estarmos onde estamos, o motivo de pessoas passarem fome e outras pagarem até 70% a mais por um pedaço de carne em algum restaurante de renome enquanto quem faz a faxina nesse mesmo restaurante talvez nunca tenha oportunidade de comer um pedaço de carne tão caro quanto aquele que é servido por lá.
Os preconceitos e conceitos sempre estiveram presentes na minha vida, como propostas periféricas questionáveis e carentes de compreensão e explicação. Eu poderia, por exemplo, fechar os olhos a todo o tipo de situação opressora com um simples "dane-se, minha família tem dinheiro, eu tenho o que comer e quero sempre mais, os outros que se danem", mas não sou assim. Não consigo ser assim. Eu realmente não consigo pensar em ter filhos num mundo onde outros filhos estarão passando fome ou condenados por sua condição financeira a serem desprezados, humilhados e atacados por aqueles que nascerão em berço.
Eu realmente não consigo dormir tranquila, não por saber que a inflação vai subir, que os juros aumentarão, que bancos, empreiteiras, empresas e governos desviarão e lavarão dinheiro, mas por perceber que a vida de todas as pessoas está, de certa forma, vinculada ao capital sujo e nojento, que divide, que envaidece, que corrompe, que oprime, que mata, destrói famílias, natureza, futuros e aprisiona o ser humano dando a ele a mais falsa sensação de liberdade. E aí vem o pior: quem tem um tanto de dinheiro sempre vai querer mais, porque nesse mundo o dinheiro compra quase tudo, inclusive aquele sentimento de poder pisar sem culpa em quem está abaixo financeiramente.
Mas há uma coisa que o dinheiro ainda não pode comprar: os sonhos e a esperança de que mesmo num mundo onde o capital humano vale mais que o ser humano e onde não é possível nem mesmo ter as mínimas condições de sobrevivência (saúde, alimento e moradia) sem dinheiro, as pessoas comecem a colocar valor naquilo que realmente vale: a vida. 
Não consigo olhar para cima e achar que só aquilo que me beneficia e beneficia meus iguais é passível de luta. Depois de ler tanta inconsequência por aí nessas últimas semanas em que as notícias enfatizam crise financeira, a única coisa que me consola é que a História que aprendi nos tantos livros e debates continua justificando as posições egoístas de alguns. Infelizmente, até quando?
Eu realmente gostaria de ver uma virada de jogo, mas acredito que enquanto o umbigo for mais importante que o cérebro, veremos a humanidade condenada a repetir aquilo que já não é segredo: a defesa dos privilégios de uns sobre os outros, não por ignorância ou inocência, mas por poder lúcido e desejado.
Mas vale pensar: será que esses privilégios de alguns também são realmente nossas necessidades? Viver com menos, viver de forma sustentável, ser solidário: estes parecem ser os três pilares obrigatórios para o futuro. Talvez esse seja o início de um novo caminho. 


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