Procura-se otimismo

*Texto publicado originalmente em 01/2016

Numa só semana, quatro notícias em particular marcaram meus devaneios sobre o que, afinal, estamos fazendo com nosso planeta e com o futuro da nossa espécie e de tantas outras espécies de seres vivos: 1) O Fórum Econômico Mundial que está ocorrendo em Davos, na Suíça, alerta através de um comunicado que em 2050, os oceanos terão mais plásticos do que peixes. 2) A NASA (Agência Espacial Norte-Americana) e a NOAA (Agência Nacional Oceânica e Atmosférica) confirmaram que o ano de 2015 foi o mais quente já registrado no planeta, desde que a medição das temperaturas iniciou, em 1880. A temperatura em 2015 superou em 0,16°C o recorde atingido em 2014, ou seja, ano após ano, o calor está aumentando consideravelmente. 3) 1% da população global detém a mesma riqueza do que a somatória da riqueza dos outros 99%.
Essas três notícias, amplamente divulgadas pelas mais diversas mídias, nos mostram uma única realidade bem próxima para a humanidade e o planeta: estamos à beira do colapso.
Como historiadora, isso me leva a pensar sobre os modos com que, em outros tempos, o que conhecemos por civilizações antigas vieram à completa ruína. Guerras, epidemias, escassez de alimentos, conflitos entre culturas, desastres ambientais... Vários fatores, isolados ou em conjunto, fizeram com que muitos povos da antiguidade simplesmente virassem apenas vestígios para pesquisadores dos novos tempos.
Conhecemos, dentro de nossos limites, todos os possíveis fatores que ameaçam a vida humana na Terra e, mesmo assim, nossa civilização insistiu novamente em “brincar de deus”, submetendo todo o planeta a nossos mandos e desmandos. Das espadas, lanças e arcos passamos aos revólveres, mísseis, bombas atômicas. Nosso conhecimento científico também nos motivou ao desenvolvimento de armas químicas e biológicas. As diferenças, os espaços, os recursos, tudo é motivo para a Guerra e, consequentemente, para lucrar com ela.
A escravidão, antes representada pela falta de retribuição financeira, pela chibata e pela submissão forçada, hoje é representada pelo relógio do ponto, pelo salário e pela submissão voluntária, que nos faz agradecer e comemorar nossos empregos nos quais, como disse o ex-presidente uruguaio José Mujica, trocamos nosso tempo de vida por dinheiro, usado para comprar coisas que supostamente deveriam satisfazer nossas vidas.
Coisas feitas com todo tipo de recurso que aprendemos a extrair da natureza, plástico, metal, madeira, etc., e que voltam para a natureza em forma de lixo, descartável, inútil e ameaçador.
Julgamo-nos inteligentíssimos, evoluídos, desenvolvidos, mas ainda não aprendemos a principal lição: viver em harmonia e de forma sustentável. Definitivamente, não há muita expectativa de futuro se nossos mares, berços da vida na Terra, estão condenados a ser depósito dos nossos restos.
Especialistas do mundo todo estão há décadas alertando para o aquecimento global, afirmando que os seres humanos têm sido responsáveis diretos pelas mudanças climáticas, que estariam relacionadas à emissão de gases tóxicos na atmosfera.  Outros preferem desmistificar essas teorias, dizendo que nenhum estudo pode confirmar o fenômeno do aquecimento global como resultante da ação humana. Entre divergências dos dois grupos prefiro acreditar nos fatos: estamos presenciando o derretimento de geleiras, a desertificação e fenômenos climáticos como o El Nino e La Nina. Além disso, os desastres ambientais, o desmatamento e a escassez de água potável são a prova de que a humanidade interfere negativamente no equilíbrio do planeta.
Politicamente falando, nossos governos atendem a um único partido: o modelo econômico que chamamos de capitalismo. Nenhum governo, em nenhum país, consegue hoje fugir à lógica do mercado que é a de produzir, vender, comprar, consumir e, mais importante do que tudo: lucrar.
Todo o planeta hoje vive em torno do consumo e do lucro. Nenhum ser humano está desvinculado do atual sistema financeiro. Mesmo as tribos mais isoladas de caçadores e coletores, estão dentro de um território demarcado de acordo com as delimitações geográficas de sistemas político-econômicos. Todo o planeta deve servir ao capital, mesmo que seja através da especulação financeira de territórios.
Quando deparamo-nos com o fato de que 1% da população mundial é detentora da mesma quantia da somatória da quantia dos outros 99%, isso deve ser um indicativo de que precisamos, urgentemente, reconhecer que o capitalismo enquanto potencial de desenvolvimento também falhou.
O geógrafo Milton Santos em “Por uma outra globalização possível”, diz que nunca na história da humanidade houve condições técnicas e científicas tão adequadas a construir um mundo da dignidade humana. O que temos feito, no entanto, é usar dessas condições para aumentar ainda mais as desigualdades. Estamos fazendo o caminho inverso. Involuindo humanamente com a evolução científica e tecnológica e obedecendo a pedaços de papel ao qual nós atribuímos valor quando esquecemos de nossos valores.
Hoje queria poder terminar esse texto dizendo que tenho esperança. Mas preciso dizer aos que ainda a têm, que estamos perdendo o jogo. Se continuarmos nos dividindo enquanto os grandes detentores de aparente poder e condições financeiras decidem por nós, estaremos fazendo gol contra a todo momento. Precisamos abrir os olhos e ver que o futuro que temíamos já chegou e tentarmos estabelecer um meio de fazer o jogo virar a nosso favor. Resgatar aquilo que de humano há em nós. Talvez seja o primeiro passo para nos lembrarmos do que realmente importa e aprendermos que viver em equilíbrio é melhor que sobreviver. Não precisamos ser nossos próprios carrascos. Não precisamos ser ameaça. Não precisamos ser melhores do que os outros. O poder está onde o colocamos. E o poder é uma construção humana que tem limitado a humanidade que insiste em acreditar nele. 


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