Os índios têm nome
Os índios têm nome. Quando chegaram a América, os europeus batizaram esta terra e os nativos que nela habitavam. Erroneamente, chamaram de índios aqueles que acreditaram se tratar de habitantes das Índias. O equívoco em utilizar essa nomenclatura sobreviveu ao tempo e talvez tenha sido uma das formas de facilitar a justificativa para transformar as centenas de comunidades nativas em uma só, a qual deveria dar espaço aos invasores, comportar-se de modo civilizado – leia-se, segundo aquilo que os europeus acreditavam ser o comportamento ideal de uma civilização – e servir aos interesses de outra cultura.
E a cultura dos nativos? Em 1.500, estima-se que havia aproximadamente 1.200 línguas nativas faladas no Brasil. Também havia cerca de 1.300 etnias nativas que somavam um total de até 5 milhões de indivíduos. Havia também um território de aproximadamente 95% de florestas, onde esses nativos viviam e mantinham uma relação sustentável com o meio ambiente.
O contato com a civilização europeia trouxe o grande sopro para a extinção dos nativos e suas culturas. De lá para cá, nos sobrou muito pouco daquele Brasil. Transformamos nossas matas em grandes lavouras, em inúmeras cidades e em estradas de concreto. Brincamos de deus e desviamos caminhos de rios. Expulsamos sem piedade todas as comunidades nativas de seus territórios originais e criamos pequenos espaços que chamamos de reservas para aglomerar o que restou de suas culturas.
Sempre que observo os discursos progressistas, procuro compreender como somos tão mesquinhos. “Os índios só exploram a natureza, são vagabundos, não trabalham, só querem viver da extração. Precisam dar lugar a quem quer trabalhar” é o discurso oficial. Ora, e por acaso o que fazemos em nome do progresso não consiste em explorar? Por acaso não exploramos recursos naturais e pessoas, em grande escala, exaustivamente e ininterruptamente?
A lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, determina que a terra cumpra sua função social. Esse é o pensamento que ainda vigora. Mas será que sua função social é apenas a de produzir e extrair para o lucro e o progresso? Será que sua função social também não é a de abrigar as diversidades culturais, os sonhos, os modos de vida daqueles que ainda, num impulso de sobrevivência, tentam manter suas tradições?
A foto acima do texto nos diz um pouco daquilo que fizemos aos nativos. Esquecemos de seus costumes e valores e impomos a eles o trabalho escravo, em lavouras de cana, extração de madeira, etc. e hoje, talvez como forma de gratidão, reservamos a eles esculturas e nomes de cidades.
Agora, impomos a eles a transformação de seus artefatos em peças capitalizadas, para que, de algum modo, sobrevivam nesse mundo que não permite outra alternativa senão a de se adequar ao sustento do sistema financeiro vigente.
O acampamento indígena da imagem trata-se de um acampamento de Kaingangues da reserva de Xapecó, em Santa Catarina. Essa reserva, há duas décadas, possuía 25.000 hectares. Hoje, a invasão disfarçadamente nomeada de expansão do agronegócio já tomou da reserva metade de seu território original. Em conversa com um dos Kaingangues do referido acampamento, ele contou que fazem artesanato para sobreviver e, humildemente, disse que aceitam roupas usadas como doação, porque as comunidades da Reserva Xapecó passam por muitas dificuldades.
Ironicamente, ouvi de pessoas que os Kaingangues estão deixando muito lixo às margens do canal onde estão acampados. Fraldas descartáveis, embalagens de alimentos, etc. Mas será que essas pessoas pararam para refletir que, na verdade, esse é o resultado daquilo que nossa cultura impôs a eles? Talvez eles se coloquem às margens da estrada porque compreendem que essa é sua posição na atual sociedade.
A escultura na imagem trata-se da representação de uma tupi-guarani dentro de uma pelota de couro, sendo puxada por seu companheiro. A história dos nativos, das várias tribos, dos seus costumes, hoje se resume a representações em monumentos.
Kaingangues, Tupi-guaranis e tantas outras culturas. Os índios têm nome! Apesar de já não terem espaço e esperança. Eles estão aí para provar nossa imoralidade civilizada. Estão aí para mostrar que suas culturas ainda resistem frente a nossa cultura.
Essa foto é o retrato da nossa hipocrisia: em destaque, no centro, esculpido em bronze, só aquilo que nos interessa. Às margens, aquilo que não desejamos ver. No Brasil, você pode ser índio, desde que não tenha nome e seja apenas um monumento bonitinho em pórticos ou praças para turistas fotografarem. Do contrário, você será apenas alguém de outra cultura, que atrapalha o progresso e os interesses da civilização.


Comentários
Postar um comentário