O que é considerado alimento saudável para uns pode ser potente veneno para outros*
*Texto publicado originalmente em 02/2016
Você já parou para pensar que, independente das escolhas que fazemos, do emprego que temos, do local onde moramos, dos amigos que cultivamos, enfim, das nossas ações de um modo geral, existem elementos importantíssimos que estão relacionados com nossa energia vital e nossa saúde e sem os quais não sobrevivemos?
Um desses elementos é a alimentação.
Quando você vai ao supermercado, você escolhe os alimentos pelo valor da gôndola, pelas informações nutricionais ou simplesmente não se dá o tempo de ler as embalagens?
Você sabe o que são alimentos transgênicos e derivados de transgênicos? Sabe que eles já tomaram conta das prateleiras no comércio de alimentos? Você sabe reconhecer um alimento transgênico em meio a variedade que é disponibilizada no mercado?
Hoje dedico este espaço para escrever a você sobre os alimentos geneticamente modificados. Tecnicamente, não sou uma especialista no assunto, mas com alguma pesquisa aprofundada e interesse, venho tentar compartilhar de modo objetivo e claro o que aprendi (e descobri) até aqui.
Primeiramente, é necessário lembrar que as pesquisas e técnicas de transgenia iniciaram na década de 1970, nas áreas da medicina e biologia e também na produção de alimentos. Essa última, a que nos interessa nesse texto.
A manipulação dos genes de plantas teve como principal justificativa o melhoramento genético das espécies em prol da maior produtividade para solucionar o problema da fome do mundo. Espécies transgênicas também foram apontadas como mais nutritivas e resistentes a pragas e mudanças climáticas e com baixa necessidade de uso de agrotóxicos.
À frente das principais pesquisas e experimentos com alimentos transgênicos está a Monsanto, uma empresa multinacional de agricultura e biotecnologia.
Atualmente, a Monsanto é a principal produtora de sementes geneticamente modificadas. Essas sementes são de soja, milho, sorgo, algodão e hortaliças. Um de seus carros-chefes entre as culturas é a Roundup Ready, uma tecnologia usada em sementes de milho e algodão com capacidade de tolerância ao herbicida glifosato, produto cuja produção a multinacional também é a responsável e grande líder no mercado. (A Monsanto também é a responsável pela Somatrotopina bovina ou bST, um hormônio de crescimento artificial, mas isso será assunto para um outro texto!)
Abro esse primeiro parênteses para falar sobre o glifosato. Afinal, o que é?
O glifosato é um herbicida capaz de matar qualquer tipo de erva, sendo absorvido pela folha. A IARC - Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde considera o glifosato como substância com alto potencial cancerígeno (confira aqui o documento). Estudos recentes feitos por Stephanie Seneff, pesquisadora sênior do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, apontam que, em 2025, metade das crianças norte-americanas serão diagnosticadas com autismo. Entre outros fatores, a cientista aponta a exposição ao glifosato (o estudo completo pode ser conferido aqui).
Voltando aos transgênicos da Monsanto, as últimas notícias são de que a multinacional está desistindo de implementar o plantio de suas sementes na Europa. A partir de 2001, vários países europeus iniciaram uma batalha para retirar a Monsanto de seus territórios. Através da promulgação de um documento intitulado “Libertação deliberada no ambiente de organismos geneticamente modificados”, a União Europeia publicou em 2002 a diretiva 2001/18/CE, que reforça a segurança, estabelece princípios aplicáveis para a avaliação dos riscos ambientais e exige um plano de monitoramento após a colocação no mercado dos OGM’s e limita a autorização de comercialização por um período máximo de 10 anos.
Desde então, países da União Europeia têm expulsado a multinacional. Foi assim na Hungria:
Na Grécia e na Letônia:
Na Holanda:
Na Alemanha:
Na Áustria:
Enfim, a maioria dos países da União Europeia se colocaram contrários à comercialização e produção de transgênicos em seus territórios.
Na América Central, a Guatemala também tratou de barrar a Monsanto:
Do outro lado do globo, no Japão, já existem inúmeras divergências acerca da segurança no plantio de sementes geneticamente modificadas e consumo de transgênicos da Monsanto:
Mas... E no Brasil?
As notícias de 2014 colocavam o nosso país como segundo maior produtor de alimentos transgênicos do mundo, atrás apenas dos EUA, país sede da multinacional Monsanto. O mesmo relatório que colocou o Brasil em segundo lugar na corrida pró-transgênicos, mostrou que A Argentina ficou em terceiro lugar, a Índia em quarto, o Canadá em quinto, a China em sexto, o Paraguai em sétimo, a África do Sul em oitavo, o Paquistão em nono e o Uruguai em décimo (os dados desse relatório podem ser conferidos aqui).
De que forma os transgênicos chegaram ao Brasil e de que forma permanecem?
O Greenpeace, respeitada organização não governamental que atua no ramo ambiental, relata que os primeiros transgênicos chegaram ao Brasil clandestinamente por volta de 1997. Uma reportagem feita pelo Canal Rural relata como os primeiros grãos de soja transgênica chegaram de forma ilegal ao Brasil através da Argentina e Uruguai. Você pode assistir a reportagem aqui.
Em 2003, segundo a referida reportagem, 13% das lavouras de soja no Brasil eram de origem transgênica. Nesse mesmo ano, foi publicado um decreto de rotulagem que obrigou as empresas do ramo de alimentação, produtores e todos os envolvidos no setor a identificarem nos rótulos os alimentos contendo mais de 1% de matéria prima transgênica. Desde então, a luta por entidades, ONG’s e movimentos sociais, para manter a identificação de produto transgênico no rótulo tem sido constante.
Parlamentares da bancada ruralista, pressionados por indústrias do ramo alimentício e empresas de transgênicos, leia-se Monsanto (no Brasil, também representada pela Bayer) propõem projetos de lei para acabar com o direito do consumidor de saber se o que está consumindo é transgênico. A ideia da bancada ruralista é retirar a marca nos rótulos de produtos transgênicos, representada pelo triângulo amarelo envolvendo a letra “T”.
Um desses projetos, o PL 4148/2008, foi aprovado na Câmara dos Deputados e seguiu para o Senado, onde deve ser votado em breve. Quer saber quais foram os deputados que aprovaram o projeto? Confira a lista completa aqui.
Voltando aos transgênicos da Monsanto, um dos argumentos que os defensores dos geneticamente modificados utilizam para defender a produção é de que esses cultivos podem erradicar a fome no mundo graças a alta capacidade produtiva. Apesar disso, países com os mais altos índices de subnutrição ainda não observaram essa vantagem na prática. A fome ainda é um problema grave e a distribuição de alimentos está longe de ser satisfatória. Normalmente, os cultivos transgênicos estão alimentando as especulações financeiras através da superprodução, colocando países celeiros em destaque no ramo das exportações de alimentos.
E o glifosato? É usado no Brasil?
Sim! Apesar de seu uso ter sido banido na maioria dos países, o Brasil ainda utiliza o glifosato em grande escala. A boa notícia é que o Ministério Público, junto à ANVISA, quer banir o glifosato do país.
Agora que você já sabe um pouco mais sobre alimentos geneticamente modificados, sobre a Monsanto e o glifosato vamos à lista de produtos que utilizam transgênicos na composição. Você pode encontrá-la aqui.
Eu fiz o teste em casa antes de olhar a lista. Dei uma vasculhada na dispensa para saber quantos produtos transgênicos nós estamos consumindo no dia a dia. O resultado? Veja:
Como vocês podem perceber, numa rápida busca encontrei pelo menos seis produtos contendo transgênicos na dispensa da minha casa. Mas e aqueles produtos que contém algum elemento transgênico e que são industrializados fora do país?
Fiquei preocupada, por exemplo, com a utilização de absorventes femininos e fraldas descartáveis. De onde vem o algodão da composição desses produtos de higiene? Sabendo que a Índia e a China são os dois principais produtores de algodão no mundo e que o cultivo de algodão transgênico já equivale ao de algodão convencional, fico preocupada em imaginar que produtos de higiene e até mesmo roupas podem estar recebendo algodão transgênico na composição, sem que os consumidores saibam.
Então, o que fazer para que nosso direito ao consumo sustentável, ecologicamente correto e saudável seja garantido?
Talvez o primeiro passo seja a conscientização. Este texto, bem como as fontes nele utilizadas, foi redigido pensando em despertar em você, caro leitor, o questionamento sobre nossos hábitos alimentares, especialmente no que diz respeito ao consumo de alimentos e produtos contendo transgênicos. É preciso que a população saiba o que está sendo disponibilizado no mercado e quais os possíveis riscos associados aos alimentos geneticamente modificados.
A internet também está cheia de oportunidades legais para conhecermos mais sobre o outro lado das gigantes multinacionais como a Monsanto, que em nada parece ter limites quanto à dominação dos cultivos, principalmente em países exportadores de grãos, como mostra o documentário “O mundo segundo a Monsanto”, produzido pela diretora francesa Marie-Monique Robin.
Para encerrar o texto de hoje, preciso dizer que a soberania alimentar das nações deve ser respeitada, bem como devem ser asseguradas as culturas de sementes crioulas e todo o manejo que respeita as tradições milenares de plantio sustentável. Acredito que se os transgênicos não representassem uma ameaça a esses princípios, não teríamos bancos de sementes como o Svalbard Global Seed Vault, que tem por objetivo único a salvaguarda da biodiversidade de espécies de cultivos que servem de alimento para as populações do planeta.
O efeito dos transgênicos para o mundo e para os seres humanos, em longo prazo, ainda é território desconhecido da ciência. É preciso cautela e, sobretudo, é preciso informação e liberdade de escolha.
*A frase que dá título a este texto faz alusão à frase do filósofo romano Lucrécio: “O que é alimento para um homem pode ser potente veneno para outro.”







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