Mundo virtual: não basta ver/ler para crer
Existe um ditado que diz que nada é realmente aquilo que parece ser. No mundo virtual, essa afirmativa tende a ser impulsionada pela nostalgia da aparente magia das coisas. Segunda-feira, iniciamos o dia com a notícia de que a justiça havia determinado o bloqueio de um dos principais aplicativos de comunicação – o Whatsapp. Tão logo a notícia surgiu, com ela surgiram os mais diferentes tipos de informações equivocadas sobre o suposto motivo do bloqueio. Alguns compartilharam links dizendo que a culpa era do governo, outros, usaram o argumento de que o Telegram estava sabotando o Whatsapp para ganhar mercado. Enfim, o desfecho sobre o bloqueio do aplicativo fez surgir a notícia de que a rede social Facebook também seria bloqueado. Tudo boato!
Da mesma forma que estes boatos se espalharam rapidamente na rede, outros milhares de boatos são espalhados através de compartilhamento todos os dias. As “notícias” são as mais variadas: desde fatos obscuros sobre políticos e governo, até falsas informações sobre celebridades, leis, fatos envolvendo violência e morte, etc. Fazendo uma rápida análise, constatamos que no ranking das falsas notícias estão páginas que visam prejudicar imagem de pessoas, que prometem curas milagrosas, dinheiro fácil, sorteios de coisas caras, etc. Volta e meia, algumas notícias também “matam” alguém famoso.
Pior: a divulgação de notícias equivocadas já matou de verdade pessoas inocentes, que acabaram por engano sendo acusadas de crimes e assassinadas por linchamento.
A ascensão da internet como meio de comunicação trouxe diversas vantagens para o mundo, mas também trouxe para pessoas mal-intencionadas mais uma oportunidade de agirem de má fé. Na internet, quase nada é o que parece. Muitas são as reclamações, por exemplo, de mercadorias que em nada se assemelham àquelas que constavam nos anúncios.
Até mesmo simples imagens muitas vezes interpretadas de forma equivocada, tornam-se verdades absolutas. É preciso indagar sempre. Conhecer os bastidores. Opinião coletiva sobre algo parece sempre mais ok. Mas não é.
Não quero aqui dizer com isso que os indivíduos não devam dar credibilidade às imagens e notícias. Quero apenas alertar para que os indivíduos tenham mais atenção sobre imagens e notícias, principalmente sobre aquelas que parecem incríveis, mirabolantes, inacreditáveis ou satisfatórias. Imagino que o ser humano ainda possua o tal extinto de desconfiar. Aliás, penso que este instinto seja um dos responsáveis pela sobrevivência da nossa espécie. Talvez, os novos tempos que propõem a emergência de tantas coisas entre elas, as informações, esteja prejudicando nosso desconfiômetro. Será que não estamos nos deixando levar pela falsa tranquilidade e comodidade das “informações fastfood”, aquelas que vêm prontas e parecem “saborosas”?
Em minhas aulas, ao propor uma dinâmica de assistir a documentários e realizar discussões sobre determinado assunto, passei pela experiência de um educando me propor a adotar o método do “copia e cola”: decorar respostas. Segundo seu argumento, era mais fácil e cômodo simplesmente receber as informações sobre determinado assunto e reproduzi-lo tal qual na hora da avaliação.
Muitas vezes, o tradicional método do copia e cola é o mais conveniente tanto para professores que estão em situação de trabalho desgastante, quanto para estudantes, que não se interessam em refletir, em pensar, em interpretar e questionar: “para que vou ler isso, para que vou fazer esse trabalho, para que vou escrever sobre isso se têm tudo isso pronto na internet?” é o que dizem! Essa atitude (ou a falta dela) também pode ser constatada na sociedade, de modo geral. É um problema sistêmico.
Pensar, interpretar, refletir e questionar: é exatamente isso que esse sistema onde uma minoria tenta se dar bem às custas de uma maioria não quer: indivíduos críticos. E parece que a internet, que deveria servir para a promoção da globalização da informação e da expansão do conhecimento científico tem servido mais à supressão do pensamento crítico e à propagação de inverdades do que de utilidades.
O que sinto é que essa geração e as gerações futuras precisam resgatar urgentemente a capacidade de reflexão e curiosidade para que o termômetro da desconfiança volte a funcionar diante das informações.
O que vim propor hoje, não é no sentido de perdermos a inocência ou deixarmos a confiança de lado. O que vim propor hoje é que, antes de tudo, mergulhemos mais a fundo nas informações para que, cedo ou tarde, a falsa interpretação ou julgamento não venha nos prejudicar ou prejudicar o coletivo. Saborear para depois digerir.
Em tempos de instabilidade política e econômica como o que vivemos, é imprescindível que tenhamos mais desconfiômetro e, sobretudo, discernimento. Imagem não é tudo. Palavras não são tudo. É preciso ver além de enxergar. É preciso interpretar além de ler.

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