Mais uma, duas, três e contando...
*Texto publicado originalmente em 03/16

O fim de semana de Carnaval ainda estava no início quando, ao conectar na Web, passei a ler as mais diversas notícias relatando atos de violência contra mulheres. Sinceramente, não esperava que esse ano as coisas fossem ser diferentes.
Apesar de toda a preocupação e atenção atual voltada aos casos envolvendo machismo, desde feminicídio, estupro, até agressões físicas e verbais contra mulheres, as notícias sobre esse tipo de violência não param de aumentar. A temática tem sido amplamente debatida e divulgada tanto na mídia quanto fora dela. Nos últimos anos, surgiram centenas de grupos femininos com o intuito de chamar a atenção para a importância de combater todo o tipo de violência contra as mulheres. Em contrapartida, parece que, mesmo com as últimas conquistas femininas por igualdade de direitos e punição legal para crimes de violência contra mulher, a impunidade ainda vigora. Basta poucos minutos lendo os comentários abaixo de notícias que relatam crimes contra mulher para percebermos o quanto ainda estamos longe de uma sociedade menos machista e misógina.
Historicamente falando, devemos lembrar que as restrições à liberdade feminina e ao mando do próprio corpo, bem como a opressão do gênero ocorrem desde os primórdios da vida humana na terra.
Então vieram as grandes civilizações, desde as mais conhecidas como Roma, Grécia, Egito e Mesopotâmia, até os povos orientais e americanos: se analisarmos suas histórias, veremos as mulheres em posições subalternas e reprimidas.
Com as civilizações, vieram os mitos criadores e suas versões transmutadas para a religião. E segundo um desses mitos criadores, desde que o corpo feminino não pertence à mulher, ou seja, principalmente desde que a religião cristã propagou através do Antigo Testamento que Deus, o Todo Poderoso senhor das leis e do amor universal (aquele mesmo, que se diz sinônimo de amor, mas que nunca fez amor, como disse Galeano) fez Eva com a costela de Adão, que nós, mulheres, somos submetidas às mais absurdas leis que tiram de nós muitos direitos, inclusive, ao próprio corpo.
Todas as manifestações religiosas conhecidas hoje, em nada contribuem para a igualdade e libertação feminina. Menos ainda, para o fim da violência e opressão contra as mulheres.
Vejamos, por exemplo, o que diz o Alcorão:
“4:34 Alá fez os homens superiores às mulheres porque Alá preferiu alguns a outros, e porque os homens gastam a sua riqueza para mantê-las. Portanto, as mulheres virtuosas são obedientes, e elas devem guardar as suas partes escondidas do mesmo modo que Alá as guarda. Com respeito às mulheres que você receie irão se rebelar, chame a atenção delas primeiro, e depois as mande para uma cama separada, e então BATA NELAS. Mas se elas forem obedientes depois disso, então não faça mais nada; certamente, Alá é exaltado e grande!”
E as justificativas para a apropriação do nosso corpo, para violência e opressão não se baseiam apenas em religiões, mas em culturas diversas: retirada do clitóris, casamentos de jovens menores de idade e sem consentimento, atrofia dos pés para o casamento (Pés-de-lótus), enfim, desde que o mundo é mundo nós, mulheres, sofremos com os diversos tipos de hospedeiros que tentam e muitas vezes conseguem apropriar-se de nossos corpos e mentes, seja na forma de sentir, seja na forma de vestir ou revelar, seja na forma de pensar. O medo é nossa companhia constante. Medo da reprovação. Violência, opressão.
Não é de hoje também, que mulheres sofrem com relações sexuais não consentidas – ESTUPRO, MESMO - muitas vezes sob justificativa de que seus trajes inapropriados despertam os mais fantasiosos desejos nos machos. Ora. Estamos na barbárie?
Alguém aí já ouviu falar no Taharrush? O Taharrush é uma espécie de jogo de origem árabe, que consiste em vários homens estuprarem uma mulher em meio a aglomerações. Grupos formam círculos ao redor da vítima, impedindo que pessoas tentem ajudá-la. Ao mesmo tempo, se divertem com a cena enquanto se revezam no estupro. O Estado Islâmico tem colocado o Taharrush em prática, principalmente com mulheres não muçulmanas.
Sim. Estamos na barbárie.
Depois de passear um pouco sobre a ponta do Iceberg histórico de milhares de tipos e formas de opressão e violência contra mulher, retorno ao ponto de início do texto, com duas notícias que marcaram meu final de semana de Carnaval: a primeira é sobre uma jovem de 14 anos (Gama, Distrito Federal) que se recusou a fazer sexo (reagiu a estupro, né?) com 3 homens e foi covardemente morta com pelo menos 40 facadas por eles. A segunda é sobre um cara que aplicou sedativo e abortivo em sua namorada sem o consentimento dela, na tentativa de matar seu próprio filho ainda no ventre.
Entre os comentários das notícias de ambos os casos, homens e (pasmem!) mulheres, desejando que os responsáveis por tais crimes fossem “feitos de mulherzinha” na cadeia. Vejamos dois comentários:


“Feitos de mulherzinha”: isso me soou como a prova maior de que nossa sociedade até se choca em alguns casos, mas tenta combater a violência contra mulheres com a perpetuação de discursos que incitam a violência contra as mulheres. Contraditório, não?
E é por isso, por esse tipo de discurso, que sim: precisamos do feminismo. Precisamos cada vez mais do feminismo.
A cada minuto do dia eu entendo o quanto preciso de um movimento maior que lute pela igualdade e liberdade feminina e pelo fim de toda e qualquer forma de violência e opressão contra as mulheres.
Antes de finalizar esse texto, gostaria de dizer que, enquanto o escrevia, meu namorado, sem saber sobre a temática do meu texto, me chamou a atenção para uma notícia que acabara de ler na timeline de sua página em uma rede social: hoje uma mulher foi estuprada na entrada do campus Carreiro, da Furg, em Rio Grande-RS.
Encerro o texto de hoje justamente como não desejava: com mais uma notícia de violência contra a mulher e com medo de ser a próxima a compor as estatísticas mais extremas.

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