Miguel Lima: “A gente deve mirar no sol. Se não der certo, caímos na nuvem, que também é alta”


* Texto publicado originalmente em 12/2015

Miguel se considera um sonhador. Músico, com 28 anos e seis de carreira, dá nome ao seu projeto solo “Miguel Lima e Banda” desde 2013. Religioso, começou a tocar violão aos quatorze anos na Igreja da Matriz, no Centro de São Lourenço do Sul, em grupos de oração. Apesar não conseguir comparecer seguidamente, conta que atualmente retornou à Igreja, pois sentia falta de “fortalecer o espírito e tocar as músicas do céu”.

Miguel Lima - Foto: Gabriela Schmalfuss

Início

Passou a tocar na noite em 2010, com a banda Rout, onde permaneceu até 2011. Sua primeira apresentação ao público foi em agosto de 2010, no hotel Muralha, tocando guitarra e cantando em uma formatura.  “Eu estava muito nervoso, nossa. Eu nunca tinha feito um show e estava me achando”, conta Miguel. Segundo ele, a maior dificuldade que encontrou quando começou a cantar foi saber o que fazer no palco, pois apesar dos louvores que realizava na Igreja, permanecia a maior parte do tempo quieto tocando enquanto as pessoas oravam.  Afirma que a presença de palco vai surgindo com o tempo, já que aos poucos foi se soltando.

O músico conta que não deve muitos obstáculos em seu início. Por São Lourenço ser uma cidade pequena, acaba tornando fácil que as pessoas conheçam seu trabalho “o pessoal foi comentando na cidade e aí acabam ligando e procurando”, afirma. Entretanto, diz que fez dois shows gratuitos pela banda Rout, para mostrar o repertório e divulgar o grupo.

Carreira

Apesar do lado bom da cidade de interior, considera também um problema o fato de conseguir montar uma banda e permanecer com ela em São Lourenço, pelo pouco número de músicos que a cidade dispõe. Porém, acredita que o cenário tende a melhorar, pois acha que de dois anos para cá surgiram bandas novas, que fizeram com que o movimento de músicos crescesse. Miguel apoia iniciativas culturais como o Encontro de Produção Fonoliterária Independente, realizado na última Feira do Livro de São Lourenço, no início de novembro. Apesar de não ter comparecido por ter outros compromissos na data, considera o evento importante para abrir o campo da música: “Mesmo para quem faça só por hobby, é importante que existam os espaços. Com esses movimentos todo mundo vai pensando junto e criando eventos e festivais para que todos os estilos possam mostrar a sua arte”.

Miguel conta que depois que passou a encarar a música através de um projeto firme, nunca mais parou de tocar. Explica também o surgimento do nome Miguel Lima e Banda: “Vi que quando divulgava no meu nome o pessoal interagia mais na internet”. Atualmente, faz em média cinco shows por mês e está com agenda cheia em todos os finais de semana até março do ano que vem, com shows eventuais nos dias de semana. O período com mais eventos é entre novembro e março, onde faz de oito a dez shows por mês, por ser época de alta temporada na praia de São Lourenço.

Ele diz que a música, além de ser uma das coisas mais importantes da sua vida (junto com sua mãe, Tânia), proporcionou a possibilidade de que ele conhecesse cidades nas quais nunca havia ido, como Tapes. Acredita que os momentos mais marcantes que já teve foram proporcionados também pela música. No início de 2015, realizou a abertura de três shows nacionais (Chimarruts, Armandinho e Reação em Cadeia), algo que sempre teve vontade de fazer.

 Outros trabalhos

Ele diz que é alguém que corre atrás do que quer, pois só consegue fazer o que realmente gosta e acredita. “Posso fazer, estudar e trabalhar em outras coisas. Posso dar certo nelas, mas só vou estar cem por cento feliz e satisfeito se eu fizer aquilo que eu realmente gosto”.

Apesar de ser formado em Educação Física e ter gostado muito do curso, não se vê exercendo a profissão. Diz que, se não fosse músico, teria que ficar na parte das artes ou em jornalismo, pela facilidade que tem em se comunicar.

Seu primeiro emprego foi entregando jornais, às cinco e meia da manhã. Depois disso, trabalhou como estagiário da Agência Yaih, como instrutor em uma academia e no Seplama, enquanto fazia faculdade, órgão da Prefeitura responsável pela área de planejamento e meio-ambiente. Miguel também trabalhou nos anos de 2010 e 2013 como oficineiro no PELC (Programa de Esporte e Lazer na Cidade), pertencente à Secretaria de Educação, no qual fundou as aulas de violão. Os encontros aconteciam em escolas públicas de São Lourenço, nos turnos inversos às aulas das crianças. O projeto, que atendeu cerca de 80 pessoas durante sua realização, era aberto à comunidade. As escolas serviam apenas como núcleos. Apesar do sucesso obtido, o músico acredita que o projeto não voltará a acontecer.

Miguel conta que fica muito feliz e orgulhoso até hoje, vendo seus antigos alunos tocando. “A sensação de já ter sido aluno e atualmente poder ensinar é emocionante. (...) É uma troca de experiências, tu aprendes com o aluno assim como o aluno aprende contigo”, afirma.

Família

A avó Sara, de 86 anos, conta que tem muito orgulho do neto músico e que já viu suas apresentações na Igreja e nas festas de família. Nos shows, dona Sara nunca foi, pois diz que são muito tarde. Em casa, diz que Miguel treina bastante violão, porém sempre escondido em seu quarto.

Miguel e a avó Sara - Foto: Gabriela Schmalfuss Borges

Quando lembra da infância, Miguel diz que se recorda da sua primeira casa, localizada no centro. Conta que tem muitas recordações boas do local, como uma parte que era só grama, “o pessoal fazia uma barraca e todo mundo ficava embaixo”. Miguel diz que, além de ter uma família grande (a que ele mora junto), possui também uma outra família que mora no interior. A mãe, dona Tânia, foi criada em São Lourenço, adotada pelos avós de Miguel. A família que mora na colônia é de seus parentes biológicos, também por parte de mãe. Ele afirma que se dá bem com ambas, porém não tem contato com o pai. “A minha mãe significa tudo para mim. Ela me criou praticamente sozinha e até hoje faz as coisas todas por mim. Às vezes me dá umas duras, mas me mima. É uma pessoa fantástica, trabalhadora, que sempre se esforça e corre por mim. Hoje as correrias que eu faço são por ela e para ela”.

Racismo

Negro, Miguel diz que sofre preconceito desde 1988, o ano de seu nascimento, porém evita dar bola e prefere ironizar a situação, pois acredita que todo mundo é igual. “Se o cara vier com preconceito eu devolvo brincando e faço piada”, conta. Ele diz que sabe quando alguém não está satisfeito ou feliz com a sua presença: “A gente sabe quando tem um olhar diferente, o olhar da pessoa diz tudo”.

Quando perguntado sobre qual a melhor solução para enfrentar o preconceito, Miguel diz que os negros devem se afirmarem na sociedade: “Eu acho que nenhum negro pode ficar se vitimizando, essa é a pior coisa que tem.  Mesmo sabendo que é mais difícil em muitos aspectos, cabe a nós bater o pé e provar ou mostrar que somos tão capazes, como somos realmente, do que qualquer outra pessoa. “ O músico diz que se sente um espelho para outros negros. Miguel também não é a favor das cotas, pois segundo ele iria se sentir menor e constrangido em receber um favorecimento que não considera preciso.

Amor

O músico diz que tem muitas manias e às vezes se sente meio paranoico: “Não pode deixar nada para amanhã, principalmente coisas mal-resolvidas. Isso serve para qualquer área da vida”.

Miguel também se considera uma pessoa honesta e romântica. Conta, porém, que seu jeito brincalhão, principalmente em festas, faz com que o pessoal não enxergue tanto o seu lado apaixonado. Afirma que apesar de não ter terminado, já compôs alguns versos e tocou para a “menina que gosta”. Conta também que é presenteador: “Adoro agradar e gosto de pegar de surpresa, num dia em que ela menos espera”.

Futuro

Daqui a dez anos, ele pretende ter atingido o sucesso nacional: “O plano é esse. Vamos trabalhar para isso. A gente deve mirar no sol. Se não der certo, caímos na nuvem, que também é alta”

Considera São Lourenço é um lugar muito bom de se viver e tranquilo, porém sua permanência na cidade depende de que rumo sua profissão vai lhe levar. “Entendo que a vida é curta, acho que não estamos aqui a passeio, acho que cada um tem algo a cumprir e acrescentar ao mundo, cada um tem uma mensagem para passar, as pessoas têm que acreditar nisso”, diz o músico.

“Muitas vezes as pessoas desistem do sonho por ser muito difícil e acabam não passando a mensagem que elas tinham que passar”, afirma.

Miguel, que tanto a nuvem quanto o sol sejam teus.

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