Eu, tu, ele, nós, vós...
*Texto publicado originalmente em 02/2016
O texto dessa semana tem a proposta de desafiar você, estudante, pai de estudante, professor, diretor, ocupante de algum cargo no governo ou simplesmente, indivíduo que compõe a grande parcela da sociedade que diz acreditar na educação como forma de mudanças e melhorias para o mundo.
Pauta em praticamente todas as reivindicações sociais, o investimento na educação, assim como na saúde e segurança está sempre presente nos discursos da população em geral e também, nos discursos daqueles que se candidatam a cargos públicos que viabilizam a luta por garantia de melhoria nessas áreas.
Pais, professores, diretores, profissionais e pesquisadores da área e uma parcela dos estudantes também reivindicam, em seus discursos, uma educação de qualidade.
Mas e para além dos discursos, como se dá a efetiva atenção e ação de todos esses indivíduos para que as reivindicações se concretizem de fato?
Estamos iniciando mais um período de retorno às atividades escolares. Para os estudantes, a euforia de rever os colegas e iniciar mais um ano letivo e o material com cheirinho de novo se confunde com o sentimento de desgosto, frustração e insegurança. Tudo isso se soma à falta de estímulo para os estudos.
Enquanto alguns ainda não conseguiram vagas nas escolas, outros retornam às atividades sem consciência da importância da vaga que ocupam. Estudar para quê, alguns questionam. Outros, com seus modernos celulares e tablets conectados à rede, indagam-se sobre a importância de abrirem o livro na página tal e lerem um texto sobre o movimento de translação da terra, afinal, com um simples toque em seus dispositivos eletrônicos, são capazes de assistir vídeos, slides ou mesmo, acompanharem o movimento dos astros em sites de astronomia.
Para uma parcela dos estudantes, a velha escolha dos livros usados, com “orelha de burro”, é algo que não se enquadra a suas realidades cotidianas. Em contrapartida, em locais remotos ou comunidades carentes, muitas vezes nem o giz está disponível e a principal oferta da escola, aquela que não pode faltar, é a merenda.
Por outro lado, enquanto os estudantes dividem-se entre aqueles que sabem o valor da escola, os que se sentem deslocados diante do ultrapassado modelo de ensino e os que nem mesmo se importam ou são capazes de refletir sobre o porquê de estarem ali, temos pais e mães desesperados para que haja garantia de que todas as aulas sejam ministradas, que não haja greve ou paralisações de professores e que seus filhos lhes tragam da escola menos problemas e compromissos possíveis. Vide a defasada participação de pais e mães em reuniões escolares, na elaboração do Projeto Político Pedagógico das escolas ou mesmo, no acompanhamento da rotina escolar de seus filhos.
Em se tratando das direções das escolas, estas parecem dançar ao som de poucas notas: cumprir as expectativas do Ministério da Educação com relação à maior aprovação, garantir a permanência dos estudantes na escola e a manutenção e cumprimento das bases curriculares engessadas e ultrapassadas, afinal, o ensino precisa de quantidade e não de qualidade, pois são os estudantes (e seus resultados convertidos em notas) os números que representarão a educação brasileira nas tabelas de avaliação aqui mesmo e no exterior.
Quanto aos professores. Bem, este é um caso à parte. Uma porque me incluo nesse grupo. Outra, porque existe entre (ao menos quero acreditar que) a maioria de nós um grande paradoxo: inovar em meio ao caos ou manter a rigidez da educação tradicional e por consequência, manter a inviabilidade de mudança em toda a concepção de ensino e suas bases e estruturas.
Há meio século estudamos as propostas freireanas de uma educação para autonomia e liberdade e tentamos colocá-las em prática. Há meio século sofremos com toda uma estrutura de ensino que nos obriga e nos limita à continuidade dos velhos moldes.
A maioria de nós está ciente de que é preciso inovar, renovar e transcender as práticas pedagógicas. Muitos estão constantemente procurando especialização, aprimoramento, formações continuadas. Investimos na carreira, apesar de não investirem em nossa carreira. Nossos baixos salários refletem a precariedade de todo um sistema falido de ensino e, principalmente, refletem nossa autodesvalorização e nossa incapacidade de pensar como grupo, pois talvez nem todos, como questionei acima, são coerentes na prática com relação aos discursos.
Será que realmente queremos melhorias na educação? E se queremos, não é hora de deixarmos as diferenças de lado e pensarmos como grupo?
E nossa autocrítica, com relação à prática pedagógica? Estamos fazendo o feijão com arroz em sala de aula ou conseguimos honrar nosso juramento e buscar sempre o melhor para nossos alunos?
Para além dos envolvidos diretamente com o ensino, qual é o atual papel da sociedade nas reivindicações em prol da educação? A sociedade está apoiando a luta magisterial? A sociedade está efetivamente cobrando melhorias e políticas públicas que pautem o investimento no ensino de qualidade? O que os candidatos em que você votou na última eleição e que lhe prometeram investir na educação estão efetivamente fazendo nessa área? A sociedade, para além de pedir, também precisa participar da gestão do ensino. Precisa fiscalizar e contribuir para a construção de um ensino de qualidade.
E os nossos deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores, ministros, presidenta?
Será que procuramos saber quais são os projetos de lei que envolvem interesses da área da educação e que estão tramitando nas Câmaras de Vereadores, de Deputados, no Senado e no Congresso, visando a melhoria no setor? Será que apoiam um salário justo aos profissionais da educação? Será que realmente esperam que a educação seja a base do desenvolvimento, do sucesso, do bem estar de um povo? Ou será que tudo isso apenas é discurso, demagogia, prolixidade?
O querer, o reivindicar, o dizer é muito conveniente. A todos.
Mas estão todos muito ocupados, não é mesmo?
Ocupados demais em seus empregos, em suas vidas, em suas casas. Ocupados demais para se importarem em bater panela pela merenda que é desviada, pela estrutura física precária das instituições onde seus filhos, netos, vizinhos estudam. Ocupados demais para participarem de reuniões escolares. Ocupados demais.
Nesse ano letivo que se inicia, desafio você e também me desafio. Que tal participar um pouco mais da vida escolar, apoiar as lutas dos profissionais da área? E nós, professores, que tal reciclarmos nossas ideias, deixarmos o currículo um pouco de lado e ouvirmos a voz das comunidades, dos nossos estudantes?
Precisamos nadar contra a maré, reocupar os espaços perdidos pelo descaso e lutar por mudanças efetivas. Todos nós. Pois esse interesse é (ou parece ser) de todos.

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