América Latina: Um substantivo em construção

* Texto publicado originalmente em 04/2016

        A construção da região intitulada América Latina vai além de apenas uma delimitação histórica e/ou geográfica, ela perpassa questões envolvendo o surgimento do próprio termo em busca de uma identidade. Por muito tempo a América Latina foi construída e explorada por países europeus e por norte-americanos sem se dar a devida atenção à diversidade de costumes de seus povos originários, como os indígenas e os negros. A partir do ponto de vista europeu, a região foi se estabelecendo como mera periferia a ser explorada por suas riquezas naturais, renegando o importante papel dos nativos na construção dos seus aspectos culturais.

América Latina         No Brasil, assim como em outros países da região, há a ausência de uma ampla abordagem do tema, assim como sobre o porquê de sermos intitulados e pertencentes a um espaço chamado América Latina. A sua ausência na maioria das vezes é suprida apenas em debates proporcionados no ambiente acadêmico, não saindo muito disso. Esta lacuna acarreta inúmeros prejuízos de ordem estrutural e identitária, que podem ser facilmente observadas nas atitudes políticas, econômicas e sociais da região. Não raramente, tenta-se aplicar experiências europeias que, levando em consideração a diversidade latino-americana, não tendem a dar certo, pois a sua realidade é pouco ou nada parecida com a de seus antigos colonizadores.

         A maioria dos países latino-americanos foi colonizada pela Espanha. Os demais que são o Brasil e as duas Guianas foram colonizados por Portugal, França e Holanda. Os colonizadores dessa região tinham por escopo apenas a exploração, utilizando-se de mão-de-obra escrava para lucrar. Por outro lado, a América do Norte, no que diz respeito aos EUA mais especificamente, que foi colonizado pela Grã-Bretanha, teve uma colonização de povoamento e de desenvolvimento do território por meio de mão-de-obra livre. A percepção destes dois tipos de colonização diz muito sobre como a América se dividiu geograficamente e culturalmente.
         O processo de independência na América começou com os EUA ainda antes de 1800, e as demais a partir de 1809. Embora a independência legal, os resquícios exploratórios permaneceram na cultura dos países hoje conhecidos como latino-americanos. Além disso, outro inimigo surgiu no próprio continente: os norte-americanos. Após dois anos de guerra (1846 a 1848), onde o México saiu derrotado, 2,4 milhões de quilômetros quadrados do seu território foram cedidos aos EUA. Igualmente, durante aproximadamente 60 anos, os EUA manteve o controle político e econômico de Cuba, perdendo-o somente após ser derrotado pela Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro. O processo imperialista continuou, portanto, mesmo após as independências das colônias e pode ser constatado com a intervenção econômica e governamental das ditaduras militares mais recentes.
        De 1954 até 1990, cerca de doze países latino-americanos sofreram com ditaduras militares financiadas e apoiadas pelos EUA no período da Guerra Fria. Os resquícios ainda podem ser sentidos na frágil estrutura política das democracias da região.
     Desde 1990, momento em que o regime democrático nos países latino-americanos se popularizou, ao menos 17 presidentes eleitos foram derrubados ou tiveram que renunciar ao mandato. O primeiro presidente deposto foi Jean Bertrand Aristide no Haiti, em 1991. Depois, em 2004, o mesmo presidente também seria forçado a renunciar em virtude de uma grave crise social e econômica. A lista continua com o brasileiro Fernando Collor de Mello, primeiro presidente a ser deposto após sofrer o chamado processo de impeachment. Guatemala, Peru, Argentina, Venezuela, Honduras, Bolívia e Equador, também sofreram com renúncias e/ou deposições de presidentes eleitos, sendo que os dois últimos tiveram três presidenciáveis depostos a partir de 1997. O último presidente latino-americano deposto foi Fernando Lugo, do Paraguai, que sofreu um processo de impeachment relâmpago, com menos de 17 horas para apresentar defesa perante o Congresso Nacional por 5 acusações pouco ou nada comprovadas. Em 1999, o mesmo Paraguai já havia tido um presidente renunciante. Confiram a lista detalhada neste link.
         Estamos em abril de 2016 e pouco parece ter mudado na região. O Brasil está em vias de ter o seu segundo presidente eleito deposto, em menos de 25 anos. Entre este período, mais de 60 pedidos de impeachment foram tentados! Isso demonstra a banalidade das acusações e da ausência de apego democrático. A América Latina continua definhando politicamente, muito em virtude de conchavos econômicos que insistem em permanecer e invadir a esfera sociocultural dos povos latino-americanos. A exploração da região continua, pois insiste em não dar voz àqueles que antes de serem explorados e praticamente dizimados, construíram o continente americano. São os índios, os negros e demais nativos que lutaram e ainda lutam herculeamente para manter seu espaço dentro daquilo que lhes foi impostos.
         Enquanto os descendentes de europeus não tirarem seus rompantes exploratórios que já perfazem mais de 500 anos com os povos daqui, não haverá deposição presidencial que solucionará o problema. O problema latino-americano não se soluciona com a deposição de uma pessoa, como pode se perceber do histórico reincidente acima abordado, ele é estrutural. O problema é ainda ser compreendido como periferia, como mina de ouro, como efeito colateral de Mariana, como filho a ser tutelado por uma mão invisível, nem tão invisível, de interesses obscuros. É ser moeda de troca, ser não sendo, ser perdendo. A identidade latino-americana persiste em não ser compreendida, em não ser escutada e em não ser debatida e construída por quem de direito.


         A América Latina é mais que um adjetivo, ela é substantivo. Ela é mais que um bloco de ex-colônias latinas, é mais que a parte de baixo da América do Norte. A América Latina é pulsante, é viva, é diversa e tem que ser indentitária. A busca continua, cabe a nós reconhecermos e conhecermos esse substantivo e, a partir dele, retomar de vez a voz e o protagonismo da história desta região que embora com adversidades, ainda resiste e luta.


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